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+++ b/content/escritos/eu-os-outros-e-os-totalmente-outros.md
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+title: "Eu, os 'outros' e os 'totalmente outros'"
+date: 2026-04-12
+draft: false
+excerpt: "Como posso eu, um 'outro', ignorar os 'outros'."
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+O Evangelho chegou a mim e aos outros. E quanto aos totalmente outros? Como posso eu, um "outro", ignorar os "outros"?
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+Lucas 14 narra a parábola da Grande Ceia (v.15−24) como forma de ilustrar o que fora dito antes: que devemos convidar, ao nosso banquete, os que nada podem fazer por nós. Ora, é exatamente isso que o Senhor faz. Ele nos convida ao celestial banquete ainda que Ele seja suficiente de Si para Si, e que nada possamos dar-lhe que Ele já não possua.
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+A parábola apresenta três grupos que recebem o convite:
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+1. **Os judeus:** recebem o convite primeiro, mas o rejeitam com desculpas fúteis. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam (Jo 1:11);
+2. **Os gentios:** nós, que somos alcançados e levados ao banquete. Somos chamados filhos de Deus pois cremos em seu nome e nascemos por vontade divina (Jo 1:12-13). Somos os descritos como "os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos" (Lc 14:21);
+3. **Os distantes:** aqueles que vivem pelos "caminhos e atalhos", longe da cidade (Lc 14:23), os quais são 'compelidos', basicamente 'obrigados', a irem. Estes são, aparentemente, rejeitados até pelos "outros".¹
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+Como podem os alcançados pela graça não agirem com graça? E os alcançados com misericórdia não agirem com misericórdia?
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+Em Mateus 18:23-35, lemos a parábola do **"Credor Incompassivo"**, dada como ilustração de que devemos perdoar não sete, mas setenta vezes sete vezes. Nela, um rei perdoa a enorme dívida de um homem que, por sua vez, nega perdão à pequena dívida de outro. Aquele que foi muito perdoado não perdoa — isso é, no mínimo, estranho. Na oração do "Pai-nosso", aprendemos a orar: *"perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores"* (Mt 6:9-13).
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+Tudo isso evidencia que, se eu, pecador, fui perdoado, como posso não perdoar? E ainda mais: **como posso eu ignorar?** Deus é um "totalmente outro" diante de nós; já os que aqui chamo de "totalmente outros" são aqueles que rejeitamos deliberadamente, mas que, em verdade, são semelhantes a nós. São igualmente pecadores, ainda que não alcançados (ainda) pela graça. Se Deus decidiu encher Sua mesa com pessoas que rejeitamos, quem somos nós para objetar?
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+Ao longo das Escrituras, vemos esse padrão de acolhimento ao improvável:
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+- **Os publicanos:** rejeitados como traidores, mas foi o publicano quem desceu justificado, e não o fariseu (Lc 18:9-14);
+- **Os vulneráveis:** órfãos, viúvas e estrangeiros, que no Antigo Testamento deveriam ser especialmente acolhidos, mas eram rejeitados pelos outros povos;
+- **Os samaritanos:** através da mulher samaritana, foram alcançados pelo Evangelho mesmo sob o peso da rejeição social;
+- **O bom Samaritano:** um rejeitado que agiu com misericórdia e ajudou o próximo.
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+Devemos, portanto, identificar quem é o totalmente outro e acolhê-lo em amor, levando-lhe a Palavra da salvação. O Evangelho é ofertado a todos, em todos os tempos, sem distinção; todos são chamados ao arrependimento por um chamado universal e sincero.
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+Não é nosso papel julgar os pecadores, pois estes já estão condenados — nem Jesus veio para isso, mas para trazer a Boa Nova (Jo 3:17-18). Pois, como diz o Salmo 1:5, *"os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos"*; juízo este que pertence exclusivamente a Cristo.
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+¹ Embora o texto de Lucas 14:23 não explicite um conflito entre os grupos, a exegese sugere que os habitantes dos 'caminhos e atalhos' representam o ápice da marginalidade. Sob a perspectiva da responsabilidade da Igreja, essa categoria abarca aqueles que a sociedade — e, por vezes, a própria comunidade dos já alcançados — tende a considerar 'totalmente outros' ou além da esperança. Assim, o imperativo de 'compeli-los' aponta, além da distância geográfica, para a superação de barreiras de preconceito e indiferença que os tornam invisíveis ou rejeitados pelos que já se encontram à mesa. É, portanto, também um chamado à missão de chegar aos povos não alcançados (PNA) e aos não alcançados em nosso próprio entorno.