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| author | Sivaldo <git@sivaldodavi.com> | 2026-06-29 18:36:52 -0300 |
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| committer | Sivaldo <git@sivaldodavi.com> | 2026-06-29 18:36:52 -0300 |
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diff --git a/content/escritos/fiz-calar-e-sossegar.md b/content/escritos/fiz-calar-e-sossegar.md new file mode 100644 index 0000000..85c34df --- /dev/null +++ b/content/escritos/fiz-calar-e-sossegar.md @@ -0,0 +1,62 @@ +--- +title: "Fiz calar e sossegar a minha alma..." +date: 2026-02-13 +draft: false +excerpt: "Como descansar e contentar-se no Senhor?" +--- + +Somos pressionados a buscar o sucesso e as 'grandes coisas' desde cedo, mas essa obsessão pelo topo muitas vezes nos esvazia e nos desvia do essencial. O **Salmo 131** propõe o caminho inverso: a paz, que nasce da humildade de quem confia. Em vez de tentar controlar o futuro, encontramos descanso ao reconhecer que já existe um Deus governando todas as coisas. + +> SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre (Salmo 131). + +Esse texto é um dos cânticos de romagem¹. Provavelmente foi escrito por Davi enquanto fugia de Saul², que o acusava de querer usurpar o trono de Israel; nesse sentido, expressa que ele próprio não deseja o trono: algo "grande de mais"³. + +## Verso 1 — Não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar + +O salmista se direciona a Deus ("SENHOR") e, em seguida, faz três negações acerca de si: + +**Não é soberbo o meu coração.** A soberba é o sentimento de superioridade em relação ao outro. Lembra do fariseu e do publicano (Lc 18:9-17)? Enquanto o publicano se reconhecia pecador, o fariseu se comparava e se sentia superior aos outros homens, inclusive ao publicano ("nem ainda como este publicano"). Ora, evidentemente o "mestre da lei" olhava com desprezo e era soberbo em seu coração (o que, conforme Provérbios 16:18, o levará à ruína). Esse sentimento pode se expressar em nós de diversas formas. Uma delas é achar que, porque oramos, lemos e estudamos a Palavra, vamos com frequência à igreja, somos melhores do que aqueles que não o fazem (exatamente o mesmo que fez o fariseu, usando-se incorretamente da religião⁴). + +**Não é altivo o meu olhar.** A altivez no olhar está relacionada a "olhar de baixo para cima"; é uma expressão externa da soberba, que procede do coração. Está, assim, muito relacionada à ideia anterior. Tal altivez fere a comunhão dos santos, visto que, em Cristo, somos todos iguais (Gl 3:28). + +**Não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.** Há paralelo com as negações anteriores. Os desejos do coração, influenciados pelo olhar, levam à ambição desenfreada. Ele, aqui, nega que ambicione o que não lhe cabe; ou seja, nega que deseje o trono. Revela-se, então, um perigo: o desprezo da soberania de Deus em nossos planos. Isso é condenado em Tg 4:13-15; e Paulo afirma, em 1Tm 6:6-8, que a piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Quanto à ambição, embora muitas vezes tenha sentido negativo, se entendida como desejo por melhores condições, não contrasta com a Palavra. Devemos buscar as coisas do alto (Cl 3:1-2), e o próprio Paulo utilizou sua cidadania romana quando necessário (At 22:25-29) e trabalhou para seu sustento (At 18:3). Assim, o problema não é crescer, mas fazê-lo por soberba ou independência de Deus. + +## Verso 2 — Fiz calar e sossegar a minha alma + +Agora o salmista explica como chegou a não ser soberbo de olhar altivo e (incorretamente) ambicioso, demonstrando que a humildade não é natural, mas sim é trabalhada em nós. + +**Pelo contrário, fiz.** Enquanto no verso 1 ele fazia negações, aqui ele faz afirmações. Em vez de ser soberbo, altivo e ambicioso, ele toma uma atitude. O verbo "fiz" indica ação pessoal e intencional: o silêncio e o sossego não nasceram com ele, foram conquistados. Isso é basicamente a mortificação do pecado, pois, pelo Espírito, fazemos morrer o pecado (Rm 8:13), participando da santificação que molda nossa vontade à vontade de Deus. + +**Como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe.** A criança está satisfeita na mãe, não no alimento. Assim também devemos estar alegres no Senhor, e não no que Ele nos oferece, sem exigir o "leite" das bênçãos imediatas. + +**Como essa criança é a minha alma para comigo.** O salmista está plenamente satisfeito em Deus, confiando n'Ele e em Sua providência. Ele, como nós devemos, aceitou o jugo suave de Cristo (Mt 11:28-30) e encontrou o remédio para a ansiedade (Mt 6:31-33; Fp 4:6-7): a "confiança infantil" no Pai. Todavia, isso só é possível pela obra do Espírito Santo, que em nós gera fé, confiança e esse sentimento de segurança em Deus. + +## Verso 3 — Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre + +O salmista propõe um convite à esperança, dirigido a toda a comunidade (Israel/igreja). + +**Espera, ó Israel, no Senhor.** Israel, ou a igreja, deve esperar no Senhor. Pelo salmista, aprendemos que esse convite é para todos, pois o Evangelho é ofertado a toda a humanidade. Todos devem receber a mensagem de que Ele é o Senhor e que n'Ele há descanso. Se és crente, reafirma essa verdade evangélica; se não és crente, o Senhor te convida a conhecê-Lo. Descansemos n'Ele, como João descansou ao peito do Mestre (Jo 13:25). + +**Desde agora e para sempre.** Essa confiança é contínua e eterna, não limitada ao tempo ou à juventude. O próprio Senhor prometeu estar conosco "até a consumação dos séculos" e enviou o Outro Consolador para que não fôssemos desamparados. Paulo, mesmo preso, experimentou essa assistência e encontrou contentamento n'Ele (Fp 4; 2Tm 4). + +## Conclusão + +Devemos ter este salmo como modelo, pedindo ao Senhor que possamos afirmar o mesmo que ele. Sabemos que isso é possível pela ajuda do Espírito, pela confiança n'Ele e por sempre considerá-Lo em nossos planos, seguindo a Sua vontade. Que, mesmo quando nossos planos sejam frustrados, nossa alma permaneça descansada no Senhor, e não em Suas bênçãos, cumprindo nosso fim último⁵. + +## Cristologia + +Este salmo é essencialmente cristológico, pois Davi, seu autor, aponta para Cristo. Quem, além de Cristo, poderia fazer tais afirmações com convicção? Sendo este salmo relativo a Cristo, Ele é o modelo supremo de humildade e submissão ao Pai. À medida que somos santificados, nossa alma aprende a "calar e sossegar", conformando-nos mais à imagem do Deus bendito e nos permitindo nos apropriar dessas palavras com fé e confiança. + +*Texto inspirado na mensagem que preguei na minha igreja local, durante o Culto de Jovens, em 22 de novembro de 2025.* + +--- + +¹ Também chamados de cânticos de degraus (porque Jerusalém ficava sob um monte), eram os hinos cantados pelos peregrinos durante a ida a Sião. Seu objetivo era expressar os sentimentos que os viajantes tanto tinham durante a viagem tanto que deveriam ter à medida que se aproximavam do templo. Com o fim dessa necessidade (Jo 4:23-24), tais salmos servem para nos guiar rumo à Jerusalém espiritual. + +² Essa é uma das possibilidades; a outra é a de que o escreveu após ter cometido adultério com Bate-Sebá. + +³ Isso é bem verdadeiro, pois foi o próprio Deus, e não Davi por iniciativa pessoal, que o ungiu e escolheu rei. + +⁴ Tudo o que é chamado "religioso" (igreja, oração, Ceia, batismo e afins) aponta, de alguma forma, para Cristo. Por isso, nos gloriamos naquilo que Cristo fez por nós (Fp 3:3), e não naquilo que apenas aponta para Ele. E nós os realizamos por amor a Ele, porque esses atos, como meios de graça e de comunhão, nos aproximam d'Ele. + +⁵ BCW — Pergunta 1: *Qual é o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre.* |
